Desconfiança nas instituições e riscos à democracia

Desconfiança nas instituições e riscos à democracia

Por Mariela Campos Rocha, doutora em Ciência Política, professora da Pontíficia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e analista de pesquisa do Instituto DATATEMPO. Imagem por Marcelo Camargo/Agência Brasil

Redução do engajamento cívico e dificuldade para governar

A confiança nas instituições democráticas é um pilar fundamental para a estabilidade de qualquer sistema político. Sem ela, os cidadãos não apenas questionam a legitimidade dos processos, mas também não se engajam de forma construtiva na vida pública. No Brasil, vivemos um momento em que a desconfiança em relação às instituições – incluindo sistemas políticos, eleitorais e jurídicos – atinge níveis preocupantes (1). Esse cenário desafia a estabilidade, a legitimidade, a governabilidade, e, portanto, a própria democracia.

A literatura em ciência política destaca que a confiança política é um dos principais mediadores do comportamento cidadão. Teóricos como Pippa Norris e Russell Dalton (2) argumentam que a confiança nas instituições reflete o grau de apoio normativo à democracia. Assim, quando os cidadãos acreditam que suas instituições são justas, eficientes e representativas, é mais provável que aceitem os resultados das eleições, mesmo quando não favorecem seus interesses imediatos.

No Brasil, porém, pesquisas recentes apontam uma tendência preocupante: muitos cidadãos desconfiam dos processos que sustentam a democracia (3), em grande parte devido à disseminação de fake news. A propagação de desinformação sobre as urnas eletrônicas, por exemplo, alimentou teorias conspiratórias que questionam a integridade do sistema eleitoral (4) e culminaram no apoio de uma parte da população à tentativa de golpe de Estado, com a promoção de diversos atos antidemocráticos, em especial a invasão e depredação dos prédios dos três poderes no dia 8 de janeiro de 2023.

Há também, por parte da população, a rejeição às pesquisas eleitorais, o que reflete não apenas uma falha na comunicação advinda da desinformação, mas um sintoma de um ambiente político desconfiado (5). A realização e publicação de pesquisas sérias, como são as pesquisas do  DATATEMPO, por exemplo, é uma importante ferramenta de informação fundamentada para auxiliar a compreensão do cenário político e eleitoral por parte dos cidadãos e analistas políticos, garantindo o direito à informação e fortalecendo, por conseguinte, a democracia no país.

A desconfiança na política e suas instituições gera dois efeitos principais: o primeiro é a redução do engajamento cívico. Eleitores que acreditam que suas instituições são falhas ou manipuladas tendem a se afastar do processo político, contribuindo para a apatia e a baixa participação eleitoral. O segundo é a dificuldade de governar. Governantes eleitos sob acusações de ilegitimidade enfrentam maior resistência ao implementar políticas públicas, mesmo aquelas que são de interesse coletivo (6).

Ainda assim, as pesquisas eleitorais e de opinião continuam sendo ferramentas cruciais para diagnosticar esse cenário. Elas nos ajudam a compreender como os cidadãos avaliam suas instituições, o que esperam de seus governantes e quais são as principais fontes de descontentamento. Ao mesmo tempo, elas precisam recuperar a confiança de parte do público. A transparência nos métodos de coleta de dados, a explicação clara sobre as margens de erro e as limitações dos estudos são passos importantes para combater o ceticismo, somados às ações de combate à desinformação.

A pesquisa “A Cara da Democracia”, de 2024, realizada pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação (IDDC-INCT) e divulgada por diversos veículos de mídia, revela dados importantes sobre a confiança dos brasileiros nas instituições. Segundo o levantamento, houve pouca variação no índice de confiança das principais instituições do país no ano de 2024 em comparação com o ano anterior. As igrejas continuam liderando o ranking de confiança, com 77% dos brasileiros confiando nelas em diferentes graus. Em contraste, os partidos políticos permanecem na lanterna, com apenas 5% dos entrevistados afirmando confiar muito nas legendas. Além disso, a confiança nas Forças Armadas e no Supremo Tribunal Federal (STF) apresentou variações dentro da margem de erro (7).

Superar a crise de confiança nas instituições exige mais do que esforço técnico. É necessário que líderes políticos, pesquisadores e a mídia assumam um compromisso de longo prazo com a transparência, o combate à desinformação e a educação cívica.

Notas(1) “Edelman Trust Barometer: relatório mede confiança nas instituições.” MediaTalks, 2024.(2) Norris, Pippa, and Russell Dalton. Political Trust and Democratic Support. Cambridge University Press, 2017.(3) “A democracia no Brasil em uma encruzilhada.” O Tempo, 2024.4 “Congresso, STF, Forças Armadas, igrejas: pesquisa aponta a confiança dos brasileiros nas instituições.” O Globo, 2024.5 “Cresce a desconfiança do brasileiro nas instituições democráticas.” Congresso em Foco, 20216 Norris, Pippa, and Russell Dalton. Political Trust and Democratic Support. Cambridge University Press, 2017.7 “Congresso, STF, Forças Armadas, igrejas: pesquisa aponta a confiança dos brasileiros nas instituições.” O Globo, 2024.
(publicado em O Tempo, 05/12/2024)
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